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Como assim não tem espelho?

Um relato da experiência inaugural nas danças circulares e dos frutos colhidos nesse percurso.


Publicado em 22/10/2016

Tatiana Gorenstein


Na época (a que me refiro nesse texto mais adiante) essa pergunta chegou automática à minha mente: “Como assim não tem espelho?”

Modo automático. Sempre soube da existência do botãozinho que desencadeia esse jeito de viver e que parecia ser o único operante em mim, mas eu mesma não sabia onde desligar esse “sem parar”.  Era como um funcionamento ininterrupto.

Mas voltando a ela, a pergunta. Da mesma forma como surgiu sem prenúncio, retirou-se sem deixar rastro. Simples assim, automaticamente: nem soube que veio; muito menos que se foi. No entanto, confesso que atualmente me choca pensá-la. Principalmente porque me dei conta do seu impacto sobre mim.

Foi no meio do meu caminho, esse que se fará conhecer aqui, que há pouco tempo fez-me nova visita! Porém eu já sabia comandar o tal botão; mais que tudo, conseguia desligá-lo. Por isso nos revimos: a pergunta e eu. Aí pude notá-la. Levei um susto! Reconheci-a como minha. Talvez sua capa da invisibilidade não surtisse mais efeito.

Neste momento fiquei feliz pelo universo ter me trazido a este encontro cara a cara. Convidei-a para passar uns dias como minha hóspede. Até o momento presente não desertou. E justamente por sua presença continuada, nasceu a intenção de compartilhar a minha experiência, ao mesmo tempo em que busco uma resposta.

Antes de prosseguir, esclareço que a pergunta marcou um antes e um depois. O contexto onde ela se deu também foi um divisor.

Venho de um relacionamento precoce com o balé clássico. A vida e minha mãe deram-me este lindo presente que até hoje me emociona. Posso dizer que o balé me acolheu e me ensinou muito do que sou e do que sei. Por causa dele fiz um vínculo instantâneo com a vida e aprendi a ficar em pé sobre minhas pernas.

Aprofundando, faço uso da psicologia (que me formou e muito me apraz) numa analogia entre o “meu balé” e por como a criança pré-escolar lança mão de seus pais para compreender o mundo. O que quero destacar é que para elas, eles são seus olhos, a única verdade, todas as respostas, o sentido de tudo.

No entanto, a partir do momento em que ingressam no mundo escolar tudo vai se abrindo pouco a pouco. Não raro podemos nos deparar com: “Não mamãe, você está errada. A minha professora disse que...” (cada leitor pode completar essa frase à sua moda, será gol na certa!)

Onde quero chegar? Na revelação daquilo que sugiro como análogo ao papel dos professores; ou melhor, ao papel que a escola passa a ocupar na vida das crianças. Em outras palavras: assim como a escola representa um novo olhar sobre o mundo, a dança circular apresentou-me um novo horizonte. Por isso considero-a análoga à mudança de perspectiva que a escola proporciona à criança.

Apresento-lhes então as danças circulares, a protagonista desse artigo. Foi nesse contexto que a pergunta urgiu. E foi esse caminho que me deu a possibilidade, muito tempo depois, de conversar com ela. Minhas reflexões são, portanto, fruto desta conversa.

Uma semana antes do dia D, a vida nos cruzou: o pai de um amigo do meu filho e eu. Assim como aquelas coisas que não se explicam, o assunto do bate-papo foi saltitando de escola para psicologia e por fim estreitou-se para dança circular.

Enfim o tal dia: meu primeiro dia, a primeira roda. Primeiros olhares, primeiros sorrisos, tudo muito diferente do que eu conhecia no entorno da dança. Depois dos minutos iniciais, passadas uma e duas danças em roda, algo intenso já se movia internamente. Estranho como mesmo que experimentando um desconhecido tão prazeroso, o desconhecido é sempre um desconhecido. Bingo!

Chegamos ao ponto! Aqui a pergunta: “Como assim não tem espelho?” Fiquei sem chão e sem espelho! Tornei-me alguém dos “sem”: como os “sem pipi”. Minha bronca se deu de forma inconsciente, é claro. Mas com o exato peso da sensação de castração.

A partir desse primeiro dia meu mundo não parou mais de cair. A dança circular foi desconstruindo tudo aquilo que eu acreditava conhecer. Apesar de desconcertante e talvez exatamente por isso, foi um processo lindo de viver! Continua sendo... O que ficou do balé, por completo identificado com o espelho, foi tomando nova forma.

O espelho foi uma das paredes que caiu. Como foi difícil enfrentar a verdade de que o espelho é aquele objeto de metal polido que reproduz nitidamente a imagem que o defronta. E é apenas isso. Ponto.

Por trás desta descoberta ainda viria outra: vislumbrar o longo caminho até o encontro comigo mesma. Era disso que medrosamente eu tentava fugir quando pensei que sem espelho eu não toparia frequentar “essa praia”. Tudo o que conhecia sobre mim sempre esteve ali, refletido naquele objeto. Afinal, como será essa tal dança circular que não vem com espelho? Sem espelho: onde estou, quem sou?

Percebi que me desconhecia. Veio o vazio então. Mas em seguida deram-me as mãos novamente, os participantes da roda. Começava a terceira dança e depois a quarta, a quinta... Essas mãos foram me dando contorno, puxando e encorajando meus passos ali na roda levada por aquela energia tão sem palavras! Quando dei por mim já estava caminhando. Caminho sem retorno. Como toda caminhada, a qualidade dos passos foi muito variável, mas a conexão mantinha-se inalterada.

Aquele do bate-papo veio a ser o meu focalizador de danças circulares. Meu mergulho neste mundo se deu pelas mãos, pés e coração deste alguém que mora num pedacinho de mim. Este sim foi um espelho sem preço! Na roda, cada vez que lançava seu olhar sobre mim, às vezes mesmo de olhos fechados, é como se repetisse suas próprias palavras: “É por aí, não se ‘pre-ocupe’, confie”.  Mostrou-me como se vive no amor! Foi desse amor que pude conhecer a dança genuína em mim.

Ah, outra coisa eu desconhecia. Eu não sabia (ou não percebi) que já havia dado as mãos para as danças circulares. E acrescento: foi aí que tomei minhas próprias mãos. Passei a morar em casa. A partir de então sigo dançando, sentindo, dando, recebendo, vivendo... E agora vivendo o círculo que por natureza é ininterrupto. É tudo de bom!

Antes de finalizar, quero também compartilhar que dizer sim a mim mesma para dar voz a esse artigo foi um tiro no escuro. Muitas, quase a maioria das verdades aqui reveladas eram desconhecidas inclusive para mim. Sentia que queria escrever e compartilhar, mas tinha medo.

Uma precursora deste caminho (que por acaso traz balé na sua mochila também) sem o saber, certa vez deu-me a mão quando temi e me acompanhou ao expor-me seu próprio medo. Reavivando suas palavras: “Também vivi o medo. O que fiz foi dar-lhe a mão e caminhar. E até hoje me acompanha”.

Por fim me dou conta de que o artigo foi um passo, como os inúmeros das danças, dado com a confiança de que esse caminho desemboca em casa. E que somente nesse lugar sagrado é que podemos olhar-nos nos olhos sem o intermédio do espelho e dar-nos a conhecer. A nós mesmos.

Tatiana Gorenstein, psicóloga, Gestalt-terapeuta e focalizadora de Danças Circulares.


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