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A linguagem compassiva no cuidado da roda de Dança Circular: reflexões de uma focalizadora

Focalizar também é escutar o invisível — e, para isso, o corpo todo é veículo. Quem dança em círculo sente que há silêncios que falam, corpos que percebem, gestos que descobrem novos mundos, olhares que conectam mais do que palavras. Focalizar, para mim, passou a ser um exercício constante de presença: perceber meu próprio estado interno, reconhecer meus limites, acolher minhas inseguranças, lidar com o imprevisto, estar atenta ao ambiente e à roda, convidar cada pessoa à conexão e conduzir as intenções para que possam convergir em um mesmo tema.


Publicado em 05/01/2026

Laís Lima


Ao longo da minha trajetória como focalizadora de Danças Circulares, fui compreendendo que conduzir uma roda vai muito além de tocar músicas e ensinar passos. Aprender a técnica é fundamental, mas é apenas o primeiro passo. Com o tempo, percebi que essa honra e responsabilidade pedem algo mais profundo do que técnica ou um grande repertório de danças.

Para mim, focalizar é transbordar e cuidar do campo. Um campo interno atravessado pelo externo, feito de pessoas, espaços, sistemas, histórias, sons, ancestralidade, futuro, pulsação, emoções, expectativas, limites e encontros.

Quando esse campo respira, sinto que ele integra todas as minhas experiências anteriores, que se expandem e afetam as pessoas da roda como um convite silencioso à presença.

Antes de me tornar focalizadora de Danças Circulares, sou facilitadora de Comunicação Não Violenta (CNV). E essa vivência me ajudou profundamente. Não a CNV como fórmula ou método a ser aplicado, mas como uma linguagem interna, um jeito de olhar, escutar e estar em relação.

Focalizar também é escutar o invisível — e, para isso, o corpo todo é veículo. Quem dança em círculo sente que há silêncios que falam, corpos que percebem, gestos que descobrem novos mundos, olhares que conectam mais do que palavras.

A CNV me ajudou a refinar a escuta desses sinais sutis. Aprendi a perceber não apenas o que as pessoas fazem, mas o que pode estar vivo nelas naquele momento. Essa mudança de olhar — da correção para a curiosidade, do julgamento para a escuta — transformou profundamente a forma como focalizo.

Focalizar, para mim, passou a ser um exercício constante de presença: perceber meu próprio estado interno, reconhecer meus limites, acolher minhas inseguranças, lidar com o imprevisto, estar atenta ao ambiente e à roda, convidar cada pessoa à conexão e conduzir as intenções para que possam convergir em um mesmo tema.

É importante dizer: a CNV não entrou na Dança Circular como um conjunto de frases prontas ou uma forma “correta” de falar. Pelo contrário. Quanto mais tento “aplicar” algo sem perceber o campo, mais percebo que os corpos denunciam a incoerência. E aquilo que poderia ser conexão, facilmente se transforma em uma espécie de “luta circular”.

A prática da CNV me ensinou que coerência entre sentir, intenção e linguagem é fundamental. Se estou tensa, cansada ou insegura, isso atravessa minha condução — mesmo que eu escolha as palavras mais gentis. Por isso, o cuidado começa em mim.

Antes de sustentar a roda, aprendi a me perguntar: o que está vivo em mim hoje? E, a partir disso: o que posso fazer agora para cuidar disso? Essa autoescuta não me fragiliza como focalizadora — ela me humaniza. E, quando me permito estar mais inteira, sinto que as pessoas também se sentem mais convidadas a se conectar com a presença, construindo juntas uma experiência única.

Sigo aprendendo a focalizar sem me exigir perfeição. Nem toda roda flui como imaginamos. Nem sempre consigo sustentar tudo. E está tudo bem. Posso compartilhar, posso me vulnerabilizar, posso pedir apoio.

Assim como na Dança Circular, a CNV não pede perfeição — pede presença, disponibilidade e aprendizado contínuo. Cair em antigos padrões, errar, ajustar, recomeçar: tudo isso faz parte do caminho.

Hoje entendo que focalizar é também dançar com a impermanência, com o imprevisível e com o que emerge no coletivo. A linguagem compassiva me ajuda a seguir nesse caminho com mais gentileza e menos autocobrança.

A Dança Circular, por sua própria natureza, já carrega valores profundamente alinhados à CNV: cooperação, pertencimento, inclusão, respeito aos ritmos individuais. Não há certo ou errado, melhor ou pior. Há o estar junto. Assim, a roda se constitui como um espaço de cuidado, e não de desempenho.

A linguagem compassiva me ajuda a proteger esse campo. Em situações de tensão, desconforto ou conflito — que também acontecem nas rodas — a CNV oferece um suporte ético fundamental: lembrar que, por trás de cada comportamento, existem necessidades humanas legítimas.

Isso muda tudo. Muda a forma como intervenho, como faço convites, como acolho quem se afasta ou quem chega com resistência. A roda deixa de ser um espaço de expectativa e passa a ser, cada vez mais, um espaço de cuidado.

Reconheço esse modo de olhar e sustentar a roda em muitos dos ensinamentos da minha querida mestra, Estela Gomes. Inspiro-me profundamente em sua fala, em sua condução e na forma como sustenta as rodas com gentileza e assertividade — uma dança que educa para a paz, como exercício de convivência, cidadania sensível e construção do bem comum.

Tive a honra de participar da última turma de seu curso de formação, antes de sua aposentadoria, realizada na UMAPAZ. Carrego comigo esse legado vivo: a compreensão de que a roda não é apenas técnica, mas espaço de conscientização, aprendizado coletivo e cuidado com a vida que se expressa em cada pessoa ali presente.

Esse percurso encontra ressonância em espaços que sustentam e reconhecem a Dança Circular como prática integrativa e educativa, como a própria UMAPAZ, que acolhe e sustenta esse projeto tão potente de Dança Circular desenvolvido pela Estela ao longo dos anos — um lugar onde educação ambiental e cultura de paz se unem como caminhos de transformação.

A Comunicação Não Violenta e a Dança Circular caminham de mãos dadas, ajudando a nomear e a cuidar daquilo que o corpo já sabe quando entra na roda: que aprender a conviver, a sentir e a cuidar uns dos outros é um processo contínuo — feito passo a passo, com presença e em círculo.


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