O próximo passo no trabalho de cura de traumas através do corpo
Tradução do artigo original de Stefan Freedman: https://www.dancewise.org/post/the-next-step-in-embodied-trauma-work
Há um crescente interesse pelo trabalho de cura de traumas através do corpo. Conferências online apresentam excelentes palestrantes - comunicadores inteligentes e pesquisadores pioneiros em seus campos.
Infelizmente, muitas dessas vozes respeitadas parecem compartilhar um ponto cego: raramente mencionam a dança. E, no entanto, a dança poderia desempenhar um papel extremamente poderoso ao complementar, aumentar e até transformar esse trabalho.
Com base em que faço essa afirmação? Os grandes representantes da cura de traumas através do corpo tendem a focar em áreas principais que são trabalhadas lindamente na dança:
1. Acalmar e ativar o nervo vago: Dançar é uma das formas mais naturais e prazerosas de regular o sistema nervoso. Música, ritmo e movimentos suaves convidam a uma sensação que nos traz ao mesmo tempo segurança e vitalidade.
2. Percepção somática: Como o trauma frequentemente faz com que as pessoas se sintam "fora do corpo", entorpecidas ou desconectadas das sensações, o trabalho somático é essencial. A combinação de música e movimento na dança desperta emoções, sensações e presença — convidando-nos a voltar para nossa própria pele.
3. Trabalho com "partes" e Sistemas Familiares Internos: Através da dança, podemos incorporar diferentes aspectos de nós mesmos — diferentes humores, papéis e vozes internas — e explorá-los com compaixão e curiosidade. O movimento torna-se uma linguagem pela qual nossas "partes" podem se encontrar e conversar.
4. Restaurar a confiança social: A dança é, em essência, relacional. Ela constrói confiança, corregulação e alegria no espaço compartilhado. Quando o ambiente é seguro e inclusivo, movimentar-se com o outras pessoas torna-se um convite gentil para o pertencimento.
5. Reconstruir a coerência: Um dos efeitos mais dolorosos do trauma é a perda da coerência interna — a sensação de que pensamentos, emoções e ações podem fluir juntos. A dança, como a música, é rica em padrões e ritmos. Ela desperta novamente esse senso interno de ordem e conexão.
Existem evidências sólidas de que pessoas que sofrem com Parkinson, Alzheimer ou efeitos de um AVC frequentemente apresentam melhoras notáveis através da dança e do movimento rítmico.
Diante de tudo isso, por que a dança ainda é tão raramente mencionada nos círculos mais famosos de cura de traumas através do corpo?
Talvez isso venha de uma associação: para muitos, a dança lembra o mundo competitivo e performático da técnica e do julgamento. No entanto, a dança como liberação de traumas é exatamente o oposto — cooperativa, inclusiva e sem julgamentos.
Como gostamos de dizer neste campo: "não existem erros, apenas variações" — uma frase que cunhei originalmente e que, desde então, foi amplamente adotada internacionalmente.
Passou da hora de revelarmos esse tesouro escondido. A dança oferece caminhos profundos e cheios de alegria para a cura de traumas. Todas as comunidades indígenas e pré-industriais sabem disso e fazem pleno uso desse recurso poderoso. Agora o mundo moderno precisa alcançá-las!
Stefan Freedman